sábado, 28 de novembro de 2009

Muda!

A vida de um indíviduo sofre, no seu decorrer, diversos cortes secos, capazes de mudar seu rumo. A peça de Christiane Jatahy, Corte Seco, que estreiou ontem no teatro Sergio Porto, trata exatamente disto. Nela, o público é colocado diante de algumas histórias que podem ser contadas através de diálogo, narração, caracterização ou interiorização. O curso delas é interrompido pela própria diretora, que fica "visível" junto a equipe técnica do espetáculo. (Me lembrou aquela prova de stand-up comedy que diz "muda!". O espírito é mais ou menos esse.) No elenco, Du Moscovis, Branca Messina e mais oito atores incríveis.

Tudo se mistura: personagem e ator, história real e ficção, ensaio e peça propriamente dita. A isso, se juntam imagens captadas por câmeras espalhadas pelo espaço do centro cultural Sérgio Porto, transmitidas ao público por meio de três telas LCD, dispostas no palco. Acompanhar toda esta parafernalha, como espectador, se mostrou um exercício agradável. A rapidez com que tudo acontece combina perfeitamente com o modo de vida contemporâneo e acredito que isso faça com que a peça seja ainda mais interessante, pois permite a diversidade de (picotados) casos contados.

Saí pensativa... será que ainda é possível assistir a uma peça clássica, montada de forma clássica, sem ficar entediado? Tenho a impressão que não. Como Felipe (Abib, ator) diz em um surto durante a peça, é muito Ipod, Itouch, e-mail, Hotmail, Gmail, Google Maps, Google Earth. Estamos acelerados demais e isto não é um problema. A arte segue o ritmo e se adapta tranquilamente.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Encontro

Joss Stone veio mais uma vez ao Brasil e dessa vez eu não resisti. O ingresso era barato e ela já havia me consquistado de outras soul sessions. De quebra, a abertura era da tal Maria Gadú, que dizem ser a salvação da MPB e shimbalaiê. Óbvio que o barato sai caro, às vezes. Para o meu ouvido saiu, porque o HSBC Arena a alguns metros de altura não é bacana. Fica a dica que vale pagar um pouquinho (ou muitinho) para ver o artista sem achar que ele é um playmobil. E escutar o som com a pressão e o volume merecidos.

Voltando a Maria Gadú, tenho que assumir que, com a mídia fazendo todo esse estardalhaço, eu resisti aos encantos da menina, ainda que já tivesse ouvido as músicas no MySpace, em um dia desses quase-qualquer. Pois bem, me rendi. E me arrependi de não ter ido ao show sem ter ouvido o disco antes, com todas as músicas na minha cabeça. Queria ter me identificado com elas ao vivo, ao invés de, apenas, achar que eram boas. Ainda implico com o fato da cantora ficar sentada durante todo o show e fazer pose de tímida. Há quem defenda esse "estilo", mas não faz sentido uma artista ser tímida e falar para dentro, ao se dirigir ao público. Também não acredito em salvação, mas em um novo (e bom) nome para a mpb. Fora isso, Gadú tem uma voz que leva para longe.

Joss Stone veio toda saidinha, de vestido curto e cabelos lisos. Gostava mais da fase hippie, mas nada mudou na voz da moça, que me deu um susto na música de abertura Super duper love, quando firulou tanto que o hit virou um carnaval. Para o meu alívio, tudo voltou ao normal já na segunda do setlist e o show fluiu perfeitamente. O trio de backing vocal deu um show à parte e Joss foi graciosa distribuindo sorrisos em seu curto show de uma hora e meia. No repertório faltaram Jet Lag e Don't cha wanna ride, mas Baby,baby,baby e Tell me what we're gonna do now rechearam a lista de hits.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Cinema brasileiro a preço de banana

O Projeta Brasil completou uma década este ano e, para quem não conhece, trata-se de um dia inteiro destinado ao cinema nacional nas salas Cinemark. Cada sessão custa dois reais e a renda é revertida para iniciativas de apoio ao cinema nacional. Convenhamos que é juntar o útil ao agradável porque a causa é nobre e cinema barato assim é uma diliça.

Todo ano os cinéfilos se programam para ver quantos filmes for possível, encaixando horários e emendando sessões. Opa, deixem que eu me corrijam. Os cinéfilos não, mas os quase-cinéfilos, já que os propriamente ditos já assistiram aos filmes no Festival do Rio do ano anterior. Apertando um compromisso aqui, matando uma aulinha ali, eu consegui fazer a minha maratona também. Confesso que já fui melhor nisso, mas ainda assim assisti cinco filmes: o vergonhoso Bela noite para voar, o impressionante À deriva, o fofo-engraçadinho Romance, o surpreendente Tempos de paz e o pastelão Os normais 2.

Os filmes em cartaz conseguiram o equilíbrio entre os muito bons e os assustadoramente ruins, entre os alternativos e aqueles blockbuster made in brazil. Bacana que dá a oportunidade do público ter acesso a filmes "diferentes", mas também dá a bilheteria que alguns filmes toscos não tiveram enquanto estavam sendo exibidos.

sábado, 24 de outubro de 2009

Salve o cinema brasileiro

Todos já sabem que o filme escolhido pelo Ministério da Cultara para concorrer a uma indicação no Oscar 2010 foi Salve Geral, de Sérgio Resende. O que me surpreendeu na programação de cinema do fim de semana é que, em menos de um mês, o filme está sendo exibido em apenas seis salas do Rio.

Assisti Salve Geral antes mesmo da estreia e o filme bateu bem, ainda que a fórmula seja repetitiva ao misturar ficção com fatos reais de violência nos grandes centro urbanos. Neste caso, os ataques do PCC pela cidade de São Paulo em 2006 se entrelação com a história de Lúcia, uma mãe que luta para tirar seu filho Rafael da cadeia.

O filme está longe de ser ruim, tem ótimas atuações, mas não acredito que seja merecedor de uma indicação dessas. Começando pela visível falta de interesse do público, que não deve conseguir segurar o filme em cartaz por muito mais tempo do que ele já está. Depois pelos pecados de "grandes filmes brasileiros", que têm cara de televisão e, na maior parte das vezes, pecam nas cenas de ação e perseguição.

Meu palpite é que ficaremos fora dos cinco indicados, como no ano passado com a tentativa de Parada 174. Alguém mais otimista que eu?

domingo, 11 de outubro de 2009

Filho de peixe

Meu caso com Pedro Mariano é antigo. Aos 13 anos, fiquei encantada ao vê-lo cantar Preciso dizer que te amo em um especial em homenagem ao Cazuza. Eu tinha isso gravado em VHS e quase arrebentei aquela fita de tanto voltar ao mesmo ponto para rever a apresentação dele com aquela voz linda e um coletinho cafonérrimo!

Dez (!!!) anos se passaram, eu passei por fases rebeldes, achando que só grunge o prestava. Que bom que passou! Obedeci aos meus impulsos numa dessas quintas e resolvi entrar no Canecão. Fazia tempo que eu prometia para mim mesma que iria em um show do Pedro Mariano e nunca conseguia, pelos mais variados motivos.

Fui lá e a minha vontade foi morta com gosto de música swingada, meio funk, meio soul. Simpátissimo, o cantor abriu com Quase amor e logo entrou em discurso explicando o por quê demorou cinco anos para lançar seu trabalho mais recente, Incondicional. Emendou daí com a baladona lindíssima Simplesmente.

A comunicação que Pedro Mariano estabelece com seu público é direta: ele conversou com a plateia o tempo todo, criando um clima de intimidade bastante agradável. Deve ser por isso que as "meninas" gritam "lindo" e "gostoso" sem cansar... Só não acredito que eu fui a única a reparar que ele esqueceu de fazer jus ao apoio da Cavalera. O figurino "trabalho do escritório e estou a cima do peso" não combinaram com o show. A blusa do Super-Homem do bis deveria ter sido o figurino principal.

Lá pelas tantas, foi apresentado o "set bagunça", em que ele toca bateria além de cantar. (Pronto, me ganhou! Se eu já tenho problema com baterista, imagina se o cara canta ao mesmo tempo!?rs) Nesse bloco o destaque foi Colorida e Bela, de Jair Oliveira. Voz no Ouvido e Livre pra voar completaram a leva das músicas que eu sempre imaginava como seriam ao vivo. E foram... perfeitinhas. Fecho este texto, que soa mais como uma babação de ovo, me arriscando a dizer que Pedro Mariano é o melhor dos filhos de Elis.

A encantadora Lily

Poderia ser nome de filme (piegas) mas não é. Lily Allen esteve no Brasil e arrancou suspiro de fãs, aplausos da crítica e mais uma admiradora. A atenção voltada para seu cd mais recente, It´s you, not me, incluiu um visual super 80's e um comportamento mais brando. A escandola Lily ficou para trás, ou pelo menos sossegou um pouquinho.

Mas calma... Lily não virou santa. Em atitude ela continua provocante. Foi óbvia (o que não elimina a fofura do ato) ao entrar no palco enrolada com um tecido brasileirinho. Por baixo, um vestinho super curto e transparente que, no contraluz, revelava a calcinha de vovó. E daí?

Lily é espontânea e soltinha, trocou os saltos altos por um confortável tênis que até melhorou sua performance, com direito a cover de Womanizer, de Britney Spears, e dancinha digna de um bom pancadão. Afinadinha que só, não cansou de elogiar o público e também não economizou "I love you" para o Brasil.

Boatos estão soltos, ela mesma diz que já não tem gosto de ganhar a vida com a indústria fonográfica. Ainda assim, tem shows marcados até o ano que vem. Mantenho a torcida por mais disco de Lily. Loira ou morena, descoladinha ou comportada, engajada contra pirataria ou largando o fuck you. Estava mais que na hora do pop ser bem representado por uma (boa) menina.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Confissões de uma Bienal

A cada edição, a Bienal do Livro me traz os mesmos questionamentos:
  • será que vai valer a pena ir?
  • será que os preços vão ser legais?
  • será que eu vou conseguir andar aquilo tudo?
E as respostas são sempre as mesmas: não três vezes. Não adianta dar uma de rabugenta e repetir a célebre frase "da próxima vez eu não vou". Eu sei que vou e sei que será igualzinho como antes.

O primeiro problema é escolher ir durante a semana, com aquelas excursões escolar que não acabam, ou no final de semana, quando a bienal vira programão de família. Nenhuma das duas situações se encaixa no mundo ideal e se você (eu) quer ver livros em um lugar vazio, vá na Fnac numa terça pela manhã ou faça compras pela internet.

Convencida de que não era mesmo possível não esbarrar com crianças pelos corredores, eu aproveitei os três pavilhões gigantescos do Rio Centro e garimpei os stands. Só fugi das editoras religiosas! De resto, lá estava eu olhando com atenção, procurando plaquinhas de promoção, desconto ou qualquer coisa semelhante. O segundo problema é que quando eu achava uma dessas plaquinhas, percebia que era tudo mentira. Os livros custavam o mesmo (e as vezes mais) que nas livrarias.

Fiz o caminho inverso e entrei pelo pavilhão verde, o que tinha mais "coisas para crianças". Entendi assim porque era tanta criançca, mas tanta criança... Ah, legal criança na Bienal, incentivo à leitura, floresta de livros e stands pensados para elas. Se tinham livros baratinhos eram os infantis, além daquelas edições pobrinhas dos clássicos da literatura brasileira. Lucíola, A moreninha, Dom Casmurro... tudo por um precinho que cabe no seu bolso: R$3,00.

Chegando no pavilhão azul, onde estavam as grandes editoras, fugi de alguns tipo o da Saraiva, que pareciam formigueiros. E quando, finalmente, alcancei o pavilhão laranja, eu já estava sem a menor paciência para ver livros! A fome foi chamando a atenção e percebi que era melhor ter levado aquele lanchinho esperto na mochila. Terceiro problema: R$12,90 por duas fatias de pizza e 300ml de refrigerante no Mister Pizza!? Não, não...

Mas o maior problema é que eu sou tipo criança, que "ganha" presente e logo esquece dos perrengues. Saí de lá com três livros, e sem gastar muito. E eu juro que não se trata de best seller ou ficção chinfrim. Deve ser por isso que, daqui a dois anos, estarei lá outra vez.